quarta-feira, 30 de novembro de 2011

A Resposta de Cada Um

Eis aqui um dos capítulos do quarto livro, apenas para provocar as mentes curiosas. Ele está no forno e pretendo terminá-lo até o fim de janeiro. 

Apenas para situar:
Tallek, o personagem central da obra.
A poltrona em que ele se aconchega é um sub produto de uma tecnologia, dominada a muito tempo por um povo, os semerianos, com os quais Tallek entrou em contato.
Terra é o robô que o acompanha, servindo-o e cuidando para que sempre esteja protegido. Fora disponibilizado pelos semerianos.
Caixa é um objeto, uma rocha, semelhante a um paralelepipedo. Contituido de um material capaz de armazenar informações e Tallek está tendo acesso a estas informações.

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Tallek sentia que sua curiosidade estava cada vez maior, precisava saber o que havia nas demais caixas. As duas primeiras lhe deixaram ainda mais curioso. Recostou a cabeça na poltrona e deixou que a tecnologia fizesse o restante. Sabia que era um processo normal, já havia se acostumado. Mesmo assim sentia um frio lhe percorrer a espinha dorsal. Não tinha que se preocupar com alimentação, Terra se ocuparia de mantê-lo.

Um turbilhão de imagens coloridas. Impossível definir alguma forma. Um silêncio assustador. De repente escuridão total. Tallek ainda está com sua mente ocupada pelas cores. Um som começa a ser percebido. É um chiado intermitente, baixo e quase inaudível. Será que algo havia entrado na sala e atrapalhado sua pesquisa?

_ Tem alguém ai? - Novo chiado, mais alto!
_ Quem está ai? - O chiado recomeça e vai aumentando. Tallek se impacienta.
_ Vamos! Se pronuncie! - Então o silêncio é interrompido.
_ Obrigado por vim! - Soou uma voz bem baixa.
_ Como assim, obrigado? Onde estou? Quem está ai?
_ Obrigado sim! Pois não tinha certeza de que chegaria até aqui. - Silêncio, mas Tallek sabia que a resposta ainda não terminara.

_ O que está acontecendo?
_ Estamos presos na nossa realidade.
_ Realidade? Presos? Eu sei que estou recebendo informações sobre a origem do universo...
_ Eu sei, fui eu quem lhe colocou nessa situação. -  Novo silêncio.
_ Preciso sair daqui, você é louco! Onde está Terra? - Tallek tentou se movimentar, mas seu corpo não respondia. Algo naquela voz lhe era familiar.
_ Não adianta, só poderemos sair daqui juntos. E se eu estiver louco, então ambos estamos.
_ Do que está falando? Quem é você?
_ Eu? Não me reconhece?
_ Como poderia, aqui está muito escuro e não posso lhe ver, apareça!
_ Não pode, eu sei! Podemos apenas nos perceber. Eu lhe percebo e você também me percebe.
_ Como assim? - Novamente silêncio. Luzes começam a surgir. Logo imagens, ainda fora de foco.

As imagens se tornaram nítidas. O nascimento de uma criança e a correria dos médicos. Uma mulher dando a luz a uma criança, era sua mãe! Estava deitada na cama, jovem. e com o rosto coberto de suor e lágrimas. Estava chorando copiosamente, uma enfermeira a consola.


As cenas mudam, sua mãe segura uma criança nos braços, era o recém nascido. Seu pai está ao lado dela, também estava jovem e a está amparando. O médico lhe explica que não há o que possa ser feito. Sua mãe olha para a criança e sai do hospital, acompanhada de seu pai. Tallek sabia ser ele a criança. Tudo volta a ficar escuro.

_ Reconhece a cena? - Tallek recompõe o pensamento, aquilo o desnorteou.
_ Como fez isso? Porque estas cenas? Como chegou a elas? Quem é você? - Tallek estava novamente se sentindo desamparado e só.
_ Calma, não se preocupe, tudo ficará explicado.
_ Explicado? Estou em um universo diferente e em outra dimensão, conversando com uma voz do além, vendo cenas de meus pais. Como é que isso pode ser explicado?

Novamente luzes. Logo as imagens ficam mais claras e definidas. Um garoto corre pela rua, é ele, ainda menino, seguido de outras tres crianças, seus irmãos. Tallek os reconhece, estão brincando de ver quem pode ser mais rápido. Ele corre mais que os outros e está ganhando. Sua irmã, a mais nova, cai. Ele para e volta para levantá-la. Seus outros dois irmãos passam por eles e chegam em primeiro, à linha de chagada imaginária. Um portão se abre, sua mãe surge, mais velha que da primeira vez que a viu. São chamados para o almoço. Novamente a escuridão.

_ Lembra-se?
_ Não, não lembro! Mas porque está me mostrando tudo isso? Como conseguiu essas imagens? Alguém filmava isso tudo? Porque?
_ Essas imagens são as que tenho em minhas lembranças? - Aquelas palavras chocaram Tallek.
_ Quem é você? - Tallek procurava desesperadamente encontrar algum  apoio, mas seu corpo não respondia. Tentava aguçar a vista e encontrar algum ponto de luz naquele lugar. Novamente luzes.

Viu-se num quarto de hospital. Reconheceu o lugar, virou-se e viu deitado sobre a cama o corpo cansado de seu pai. Ao lado da cama, em pé, Luiz (seu nome na Terra), sabia que era ele. Reconheceu aquele momento, talvez o mais duro de toda a sua vida. Percebeu o som ambiente, Luiz segurava a mão de seu pai, toda machucada pelas agulhas de soro e remédios. Ouviu a voz de seu pai, conversando com ele, Luiz.

_ Filho, preciso ficar sozinho um pouco. - Luiz se afasta da cama e sai do quarto, ficando na porta. 


Entra no quarto sua mãe, já mais velha e sua avó, mãe de seu pai. Se aproximam da cama e seu pai também pede que o deixem sozinho por alguns minutos. Tallek assiste a tudo.
 

_ Obrigado à todos vocês. - Tallek se lembra que estas foram as últimas palavras de seu pai, cinco minutos depois não estaria mais entre os vivos.

O quarto ficou vazio. Somente seu pai, deitado na cama. Então o viu fazer um enorme esforço para levantar a cabeça e olhar para frente, justamente onde Tallek se encontrava. Embora ele não estivesse ali, vivendo a cena, sentiu que um choque de surpresa percorreu o que seria seu corpo. Tallek teve a impressão de que seu pai estava olhando para ele. 


Então fez um gesto quase imperceptível com a mão, pedindo que se aproximasse. Tallek se colocou ao lado da cama. Pode ver que seu pai o olhava, com os olhos marejados de lágrimas. Sentiu uma sensação extremamente diferente. Não sabia dizer o que era.

_ Filho, obrigado! - Tallek não entendia como aquilo poderia estar acontecendo, mas isso também parecia não importar mais.
_ Pai, porque deixamos que tudo chegasse a esse ponto?
_ Filho, não se recrimine. Fazemos as nossas escolhas e temos que arcar com as consequências. - A voz estava baixa e Tallek teve que se esforçar para ouvir, tendo até que se abaixar para facilitar.

 
_ Mesmo assim meu pai, poderíamos ter feito melhor do que fizemos. Poderíamos ter cuidado melhor uns dos outros. Ter conversado mais, sermos mais unidos. Nós fomos muito egoístas. - Tallek desabafava desesperadamente.

 
_ Meu filho, fico feliz em saber que conseguiu conquistar tudo o que eu sempre desejei para você. Não é muito, mas é o suficiente para ser feliz, isso é o que importa.
_ Mas você não pode estar comigo durante estas conquistas pai. Sinto a sua falta. - Tallek chorava copiosamente, como se quizesse recuperar o tempo perdido.

 
_ Sempre estive com você! Sempre acompanhei seus passos. Você é a continuidade, todo filho é a continuidade. Acredite que pode e vá à luta.
_ Mas pai, como você pode me ver? Como pode? Como pode saber, nesse momento, se eu estou muitos anos à frente? - Seu pai ficou em silêncio por um tempo, de olhos fechados. Tallek se preocupou.
 

_ Pai? Pai!
_ Obrigado meu filho! Cuide de sua mãe e de seus irmãos, mas não os impessa de cometer seus próprios erros. Obrigado!
_ Pai, pai! Pai! - Tudo voltou a ficar escuro.

_ Lhe ajudou em algo, esta cena?
_ Me deixa voltar! Só mais alguns minutos!
_ Não há mais nada para conversar lá!
_ Mas como isso pode acontecer? Como ele pode me ver?
_ Agora sabe quem sou? - Tallek ainda estava embargado por toda a emoção de rever e conversar com seu pai. Sempre desejou estar naquele último momento.
_ Não!
_ Nem imagina?
_ Deus?
_ Não! Porque acredita que tudo que não é compreensível seja obra de Deus?

_ Não sei, nunca me imaginei vivendo aquele instante. Mas sempre desejei que pudesse ter acontecido.
_ Então? Quem poderia lhe proporcionar algo assim?
_ Como vou saber? Não sei quem possa ser. Ninguém poderia criar o que eu vi. Ninguém mais! - Tallek ainda estava desconsolado. Mas estava mais aliviado, algo em seu íntimo havia se calado. Sentia que uma calma estranha havia se apossado de seu ser.

 
_ Oras, não está tão difícil assim. - Insistiu a voz.
_ Para que tudo isso?
_ Quem poderia saber de tudo isso, em cada detalhe? Quem é que cria a tua verdade?
_ Meu anjo da guarda?
_ Precisa parar um pouco com as fantasias.
_ Fantasias? Afinal, quantas pessoas, ou seres, poderiam viver o que tenho vivido?
_ Qual foi minha resposta quando perguntou onde estava?
_ Não lembro!
_ Respondi que "estávamos presos na nossa realidade", lembra-se?
_ Tá! Lembro! Mas o que isso quer dizer?
_ Você está aqui em busca de respostas, certo?
_ Sim! Estou!
_ Pois eu também!
_ Até agora você não me disse nada que eu não soubesse. Quase sempre estamos em busca de respostas.
_ Mas a resposta que buscava, a que mais lhe incomodava, qual era?
_ Como vou saber, tenho um milhão de perguntas sem respostas!
_ Qual a resposta que mais incomodava. Aquela que sabia que nunca mais poderia ter? Aquela, que mesmo que não lembrasse, o trouxe até aqui.
_ Como vou saber disso agora? Para que tantos enígmas? Basta responder e acabar logo com isso.
_ Não posso! Sua resposta é a minha resposta. E, embora eu a saiba, não posso sair daqui se você não a souber. - Tallek seguia cada vez mais intrigado com aquela conversa.  Estava difícil conseguir encontrar as respostas.

 
_ A quanto tempo está aqui?
_ A tanto tempo quanto você está em busca de respostas.
_ Já chega! Como é que saio daqui? Você não está ajudando em nada.
_ Estou sim, mais do que pode imaginar. Pense, a sua resposta é a minha.
_ Só há duas possibilidades de precisarmos da mesma resposta.
_ Sim! - A voz pareceu estar confiante.

 
_ Já que você conhece toda a minha história de vida, nos mínimos detalhes, até os que eu nem lembrava. Além de outros que eu buscava resolver. Ou você leu todas as lembranças e desejos da minha mente e está manipulando tudo, o que eu acho plenamente possível de ter acontecido. - Tudo estava silencioso, Tallek continuou.


_ Ou então você sou eu, preso em meu subconsciente. - Uma explosão de luzes, sem nenhum som interrompe Tallek.

Tallek se sentiu invadido por uma profusão de energias, em forma de raios, que lhe atravessavam o corpo. A cada instante uma nova explosão e mais raios lhe atravessavam o corpo. Aquele turbilhão de explosões e energia continuavam sem que houvesse algum sinal de diminuição. Tallek não conseguia formular nenhum pensamento, mas mesmo no meio de toda aquela confusão ele se sentia calmo. De repente, tudo parou!


Viu seu corpo flutuar a poucos metros de si. Sabia que era ele, seu corpo ficou de frente, olhando-o. Ao poucos foi se aproximando, não sabia se ele se aproximava do corpo ou se o corpo vinha em sua direção. Viu seu corpo piscar-lhe, não entendeu a piscada,  sabia que o contato seria inevitável. Foi o que aconteceu.

Tallek acordou, estava deitado sobre a cadeira branca e o robô Terra estava ao seu lado, fazia-lhe a barba.

_ Acordou senhor.
_ Sim! - Tallek observou toda a sala, o que teria acontecido? Terra terminou de lhe barbear.
_ Aconteceu algo diferente por aqui?
_ Por aqui, não senhor, tudo está correndo como o planejado. - A voz do robô era o que tinha que ser, calma, pausada e sem emoções.
_ Quanto tempo se passou, já que está me fazendo a barba?
_ Após a sexta caixa. Nove anos, cento e oitenta dias e quatorze horas. E a barba sempre lhe faço a cada dois dias.
_ Nove anos e meio? como pode? Quanta precisão! Já foram seis caixas? Tenho a impressão de ter passado apenas alguns minutos. E se bem me lembro eu estava começando a ver as informações da terceira caixa.
_ Senhor, apenas fiz o que pediu, passei de uma caixa à outra. Em dois dias eu estaria colocando a última das caixas. Há algum problema?

_ Não! Apenas mais perguntas, mas não terei as respostas aqui. - Terra apenas balançou a cabeça, concordando.
_ Deseja que eu faça algo? Tenho tudo sob controle. 
_ Eu sei! Pelo que posso perceber tudo está em ordem, então vamos à última!

Terra retirou-se da sala, levando a sexta caixa preta. Logo retornou com uma caixa preta nas mãos. Não fosse pela certeza de que era uma outra caixa, qualquer um se confundiria, tamanha a semelhança entre as mesmas. Somente um olhar atento perceberia os sinais, imgens, que diferenciavam uma da outra.

_ Então foi isso! Eu me encontrei! Mas estas caixas não estariam espalhadas pelos universos apenas com a minha história de vida. O que estaria havendo?
_ Senhor? - Terra não entendera os questionamentos que Tallek fazia, para si mesmo.
_ Nada Terra. Nada! Está tudo bem.

Tallek recostou-se novamente na poltrona, acomodando-se. Terra colocou a última caixa no dispositivo de interpretação. A sala voltou a ficar escura.

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Abraços, J.C.Hesse - Autor da obra Tallek
Autor e Auxiliar Administrativo do Clube dos Novos Autores
Meu Twitter: JCHesse

5 comentários:

Adriana Vargas disse...

Olá, Hesse,
nossa!!!
O universo de Tallek é totalmente diferente do que eu imaginava. Pensei que eles ficavam dentro de um disco voador, ou algo assim... Mas pelo o que vejo, mesmo não sendo tão iguais a nós, eles possuem sentimentos parecidos.
Obrigada por matar a minha curiosidade.
Gostei!
Adriana

Rubens Conedera disse...

Tallek está mergulhado em uma viagem inimaginável. O trecho me deixou curioso para saber o final de tal aventura!!

Cesar S. Farias disse...

Vêm novo livro bom por aí. Desejo-lhe muita inspiração para seguir moldando a história.

Marli Carmen disse...

hEI, GOSTEI MUITO!!! PARABÉNS!!!

Marli Carmen disse...

Olá amigo!! Feliz Natal para vc!!!